Sim, só Lia.
E, apesar da piada que eu ouvia quando era criança, continuo lendo. Bastante, inclusive.
Sou psicóloga e pesquisadora em cognição narrativa. Estudo como transformamos acontecimentos em histórias e como esse processo participa da maneira como lembramos o passado, construímos identidade, atribuímos sentido ao que vivemos e imaginamos o que pode acontecer depois.
Por aqui, traduzo ciência, histórias e práticas de reflexão baseadas na psicologia em recursos para pensar sobre a experiência humana com mais repertório, clareza e agência.
A ciência é a minha primeira porta de entrada.
As histórias são a outra.
Sentido · Identidade · Agência
Uma vida não é um mero inventário de acontecimentos soltos.
Para compreender aquilo que vivemos, a mente organiza eventos no tempo, estabelece relações entre causas e consequências, inclui pensamentos e sentimentos, atribui significado e conecta experiências a ideias sobre quem somos e sobre o que esperamos do futuro.
É desse conjunto de processos que eu falo quando uso o termo cognição narrativa.
“Não passei naquela prova” descreve um acontecimento. “Eu nunca termino nada que começo” já é uma interpretação que conecta esse acontecimento a uma conclusão sobre identidade. Uma coisa não é automaticamente a outra.
Conhecer fatos sobre nós mesmos também não é o mesmo que elaborar uma experiência. Podemos saber o que aconteceu e ainda assim ter dificuldade para entender como aquilo se conecta ao restante da nossa história, o que significa para nós e o que fazemos com isso depois.
Porque a forma como organizamos uma experiência influencia o que conseguimos perceber nela e também as perguntas que conseguimos fazer sobre o que aconteceu, quem somos e o que pode vir depois.
Quanto maior o repertório para pensar narrativamente, mais recursos temos para não reduzir uma situação à primeira explicação que apareceu. Mas repertório, sozinho, não é o ponto final. Por isso, além de ensinar conceitos e usar histórias para ampliar perspectivas, eu também trabalho com exercícios e recursos de reflexão baseados na psicologia, que ajudam a experimentar essas ideias de forma concreta.
Na prática, esse conjunto de repertório e recursos pode ajudar a:
Organizar acontecimentos de uma forma que permita compreender melhor como eles se relacionam, o que importa neles e que lugar ocupam na nossa experiência.
Perceber como aquilo que vivemos participa das ideias que construímos sobre quem somos, sem confundir uma experiência com uma sentença sobre nós mesmos.
Reconhecer, mesmo dentro de circunstâncias que não escolhemos, onde ainda existem possibilidades de escolha, direção e movimento.
A proposta não é encontrar uma interpretação “correta” para a própria vida. É aumentar o número de recursos disponíveis para que cada pessoa consiga construir as suas interpretações com mais repertório, precisão e autonomia, e tenha mais caminhos para experimentar o que fazer a partir delas.
Eu gosto de chegar às perguntas sobre a experiência humana por dois caminhos e depois procurar maneiras de levar o que aprendemos para a prática.
A pesquisa me ajuda a investigar memória autobiográfica, identidade narrativa, construção de significado, imaginação do futuro e outros processos envolvidos na forma como organizamos a experiência. Meu trabalho é estudar essas ideias com rigor científico e traduzi-las sem transformar ciência em jargão.
Personagens nos permitem acompanhar desejos, conflitos, escolhas, interpretações e mudanças em vidas que não vivemos. Por isso gosto de pensar a ficção como um laboratório da experiência humana: não para diagnosticar personagens, mas para ampliar perspectivas e possibilidades.
Além de entender conceitos e ampliar repertório por meio das histórias, você também vai encontrar exercícios e recursos de reflexão baseados na psicologia. Propostas para pensar valores, observar interpretações, organizar experiências, explorar outras perspectivas, imaginar futuros possíveis e encontrar espaços de escolha.
Não são fórmulas prontas nem técnicas para “consertar” a própria vida. São maneiras de transformar conhecimento em perguntas e experiências que você pode levar para a sua.
Ciência, histórias e a arte de ser humano.
A Guilda é a casa das experiências de aprendizagem que quero construir por aqui: um espaço para pessoas curiosas que gostam de estudar a experiência humana pela ciência, pelas histórias e, melhor ainda, pela conversa entre as duas.
Por aqui, a gente entende conceitos, amplia repertório e experimenta recursos. Às vezes começamos por um paper. Às vezes por uma personagem. Às vezes por uma pergunta estranhamente específica.
Conhecimento também pode ser uma forma de aventura.
Aqui, boas histórias viram laboratórios da experiência humana.
Lemos ficção prestando atenção ao que movimenta personagens: desejos, interpretações, conflitos, relações, escolhas, consequências e mudanças de perspectiva.
Eu trago lentes da psicologia e da cognição narrativa para mediar a conversa e, quando fizer sentido, pequenas práticas que devolvem uma pergunta da história para a vida: pensar valores, comparar perspectivas, imaginar alternativas ou perceber onde ainda existe espaço de escolha.
Não quero transformar personagens em diagnósticos. Muito menos literatura em manual de autoajuda.
Quero ler boas histórias com densidade e usar o que elas nos mostram para ampliar o repertório com que pensamos sobre gente, sobre o mundo e, inevitavelmente, sobre nós mesmos.
Ainda estou desenhando os próximos encontros do Clube do Livro e quero entender quem quer embarcar nessa aventura comigo e, sobretudo, que tipo de experiência faria esse clube realmente valer a pena para você.
Para quem fisga um conceito no meio de um vídeo e pensa: “tá, mas onde eu posso ler sobre isso?”
Aqui nos debruçamos sobre artigos, capítulos e obras teóricas sobre cognição narrativa, memória autobiográfica, identidade, futuro, desenvolvimento, neurociência e psicologia.
Mas a discussão não termina em “o que o autor defende?”. A gente continua: o que essa ideia ajuda a enxergar? Onde ela aparece numa história ou numa situação cotidiana? Existe alguma prática que ajude a observar ou experimentar isso de forma mais concreta?
Não é um curso com currículo engessado. É estudo, curadoria, discussão e aplicação para quem gosta de mergulhar em ideias sem transformar conhecimento em uma coleção de conceitos soltos.
É, basicamente, um lugar socialmente aceitável para ficar obcecado por perguntas muito específicas junto com outras pessoas.
O Clube dos Nerds nasceu do meu hábito natural: devorar papers, cruzar bibliografias teóricas, notar conexões improváveis e ficar legitimamente obcecada por perguntas muito específicas.
Agora quero descobrir se existem outros nerds curiosos com vontade de fazer isso junto comigo.
Para quem procura uma investigação individual sobre a forma como organiza e narra as próprias experiências.
Nem todo mundo conta e organiza experiências da mesma maneira. Algumas pessoas lembram muitos fatos, mas têm mais dificuldade para conectá-los em uma narrativa. Outras relatam com clareza o que aconteceu, mas incluem pouco daquilo que pensaram, sentiram, desejaram ou compreenderam a partir da experiência.
A Avaliação do Funcionamento Narrativo é um processo individual e descritivo voltado a observar aspectos como organização e coerência narrativa, relações temporais e causais entre acontecimentos, presença de estados internos, memória autobiográfica e construção de significado.
Ao final, os achados são organizados em uma devolutiva, com discussão dos recursos que aparecem com mais facilidade, dos aspectos que podem ser desenvolvidos e das recomendações que fizerem sentido para o perfil encontrado.
A avaliação não tem como objetivo estabelecer diagnóstico, não é psicoterapia e não substitui uma avaliação neuropsicológica.
Li, gostei e provavelmente falei sobre isso para alguém durante tempo demais.
Livros, artigos, vídeos e outras coisas que estão alimentando meu trabalho e minhas obsessões intelectuais do momento. Enjoy.
Encontros e materiais para estudar comigo.
Sempre fui fascinada por histórias, mas levei um tempo para entender que elas poderiam se tornar meu campo oficial de pesquisa.
Entrei na psicologia porque eu era obcecada em entender como a mente funciona e por que as pessoas pensam, sentem e se comportam do jeito que se comportam.
Ainda na graduação, fui para a neuropsicologia. Comecei a estudar aprendizagem, transtornos do neurodesenvolvimento, cognição e comportamento. Eu gostava de tudo aquilo, mas ainda não tinha clareza sobre o que conectava tantas coisas que me interessavam ao mesmo tempo.
Até que eu tive a sorte de encontrar um Mentor.
Foi meu orientador, Vitor Haase, quem me apresentou à cognição narrativa. E foi com ele que comecei a perceber que muitas das coisas que eu já estudava desembocavam em uma questão maior: como uma pessoa organiza aquilo que vive e transforma acontecimentos em uma experiência que faça sentido para ela.
A partir daí, fui cavucando. Memória autobiográfica me levou à identidade. Identidade me levou ao raciocínio autobiográfico. Histórias me levaram a perguntas sobre perspectiva, futuro, escolha, significado. E, de repente, literatura, psicologia, neuropsicologia e desenvolvimento já não pareciam assuntos tão separados assim.
Foi aí que comecei a estudar com mais profundidade o papel das histórias na organização da experiência humana. Fiz meu mestrado dentro desse eixo, mas voltado para educação, e continuei levando essas perguntas para a pesquisa, para o doutorado e para a forma como penso o meu trabalho.
Mas estudar cognição narrativa também mudou a forma como eu passei a enxergar a minha própria história.
Durante muito tempo, eu tive uma relação bastante factual com a minha vida. As coisas aconteciam, eu fazia o que precisava fazer, cumpria metas, acumulava experiências e continuava andando. Eu sabia contar muitos fatos sobre mim, mas raramente parava para perceber como um acontecimento se articulava ao outro, que lugar determinadas experiências ocupavam na minha trajetória ou o que tudo aquilo estava construindo.
Quando comecei a olhar para a minha própria vida com esses conhecimentos, entendi o tamanho do potencial que eles tinham. Não porque exista uma história “certa” para contar sobre nós mesmos, mas porque conhecer fatos e organizar uma experiência são coisas diferentes.
Foi daí que nasceu uma vontade muito genuína de levar esse conhecimento para mais pessoas. Não só de falar sobre o que eu estudo, mas de ensinar recursos que possam ser aprendidos, praticados e usados com autonomia.
Parte desses recursos vem diretamente da cognição narrativa. Parte vem de exercícios e propostas de reflexão construídos por diferentes tradições da psicologia. Eu gosto menos da pergunta “de qual escola isso veio?” do que de outra: “o que isso nos ajuda a enxergar, organizar ou experimentar?”
Recursos para organizar melhor uma experiência, enxergar uma situação por outros ângulos, perceber relações que antes passavam despercebidas, incluir perspectivas, clarificar valores, imaginar mais de um futuro possível, fazer perguntas melhores e construir interpretações com mais repertório. A ideia não é dizer a ninguém como enxergar a própria vida. É aumentar o número de recursos disponíveis para que cada pessoa consiga pensar sobre ela por conta própria.
E histórias são um lugar muito bom para aprender e praticar tudo isso. Você conhece um recurso em um livro, experimenta em uma personagem, encontra de novo em um filme, testa uma pergunta na própria vida e, aos poucos, aquilo passa a fazer parte da forma como você pensa. A história muda, mas o recurso continua com você.
É daí que nasce a minha proposta aqui.
Quero juntar ciência, literatura, cinema, aulas, clubes e outras formas de aprender e praticar esses recursos. E quero também reunir alguns nerds para fazer isso juntos, porque autonomia não precisa significar fazer tudo sozinho. Toda aventura fica melhor quando a gente encontra alguns aliados pelo caminho.
E ver a vida por essa lente é gostosinho demais. Às vezes começo em um artigo e termino em um romance. Às vezes uma personagem me manda procurar um paper.
Hoje, as histórias que sempre me fascinaram são também uma das formas pelas quais eu estudo como a mente organiza a experiência humana. Talvez seja por isso que, para mim, histórias nunca tenham sido só histórias.
Meus atendimentos clínicos, projetos voltados à infância e atividades de formação profissional acontecem pelo Instituto Letra & Número.